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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O desperdício

(...) Não posso oferecer tudo o que sei sobre a Sandrinha para um inimigo. Seus momentos de maior vulnerabilidade, ouvindo o Chico ou errando o suflê. A Sandrinha, que eu saiba, não tem inimigos. Certamente nenhuma potência estrangeira. Não posso oferecer meus conhecimentos da Sandrinha para a Ciência. Se ela ainda fosse um fóssil que ue desenterrei e passei dez anos examinando e cujas caracteristicas revolucionaram todas as teorias estabelecidas sobre desenvolvimento humano. Se a sua maneira de raspar a manteiga fosse espantar o mundo... Mas não. Inveitei uma ciência esotérica, e um praticante e de um interessado só. Não posso dar cursos, publicar teses, formar discípulos. Participar de congressos sobre Sandrinha. Sou doutor em nada. Doutor em saudade. Entende?

Luis Fernando Verissimo

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Possibilidades

Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria é que a gente nasce com várias possibilidades e, quando uma predomina, as outras ficam lá dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo. E, vez que outram querendo aparecer.

Luis Fernando Verissimo

domingo, 12 de maio de 2013

Entendimentos

Ninguém é uma coisa só, nós somos muitos. E o pior que de um lado da gente não se deduz o outro, não é mesmo?

Luis Fernando Verissimo

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Escolha

- Vamos! Pelo menos uma vez na vida, seja decidido. Me escolha e me condene à morte, ou me deixe viver. A decisão é sua. Eu não decido nada. Sou apenas um peixe, com cérebro de peixe. Não escolhi estar nesse tanque. Não posso decidir a minha vida, ou a de ninguém. Mas você pode. A minha e a sua. Você é um ser humano, um ente moral, com discernimento e consciência. Até agora foi um protegido, um desobrigado, um isento de vida. Mas chegou a hora de se comprometer. Você tem uma biografia para decidir. A minha. Agora. Depois pode decidir a sua, se gostar da experiência. O que não pode é continuar se escondendo da vida (...)

Luis Fernando Verissimo

quinta-feira, 7 de março de 2013

Liberdades

É livre quem pode fazer o que quiser - dentro das suas limitações de espaço, tempo, energia e recursos. Só se é livre dentro de certos limites. Portanto, toda liberdade é condicional.

Se é totalmente livre quem pode exercer a sua vontade sem qualquer limitação moral ou material. Isto é: o tirano . Assim, a liberdade suprema só existe nas tiranias.

Dizer que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro é muito bonito. Mas e se a liberdade foi mal distribuída e o meu vizinho tem um latifúndio de liberdade enquanto  a minha é um quintal de liberdade, mesmo que tadinha? Não é feio sugerir um reestudo da divisão.

Cuidado com quem dá aos outros toda a liberdade. Geralmente é quem pode tirá-la.

Há os que passam o dia inteiro livres e chegam em casa se queixando disso. São os motoristas de táxi. Toda liberdade é relativa.

Toda liberdade é relativa. Verdade exemplarmente ilustrada por este diálogo entre preso e o carcereito.
- Nunca mais vou sair daqui.
- Calma. Não desanime.
- Não tem jeito. Estou aqui para sempre.
- Vou ver o que posso fazer por você.
- Não adianta. Estou condenado. Desta prisão eu não saio. Se esqueceramde mim.
- Eu não esquecerei. Voltarei para visitá-lo.
- Promete? - diz o carcereiro.

Quem é livre as vezes não sabe Quem não é livre sempre sabe. OU será o contrário? A gente vê tanta gente inexplicavelmente feliz.

Alguns são obcecados pela liberdade e prisioneiros da sua obsessão.

Os loucos são liver e vivem por isso.

Poderia se dizer que livre, livre mesmo, é quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avião. Mas mesmo este depende de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na primeira classe. E nunca escapará da dura realidade de que só chegará em Paris para o almoço do dia seguinte. O planeta tem seus protocolos.

Fala-se em liberdade como se ela fosse um absoluto. Mas dizer "eu quero ser livre" é o mesmo que dizer "eu quero" e não dizer o quê. Existe Liberdade De a Liberdade Para. Não é uma questão do mundo. O liberalismo clássico iconizou o Liberdade Para. Você é livre se tem liberdade para dizer o que pensae fazer o que quer, para ir e vir exercer o seu individualismo até o fim, ou até o limite da liberdade do outro. A ideia de que a liberdade é a Liberdade De é recente. Livre de verdade é quem é livre da fome, da miséria, da injustiça, da liberdade predatória dos outros. A ideia é recente porque antes era inconcebível.

Ser livre do despotismo era automaticamente ser livre para o que quisesse, para a vida e a procura individual do paraíso. Foi preciso uma virada na pensamento humano para concluir que a Liberdade Para e a Liberdade DE não eram necessariamente a mesma liberdade e outra virada para concluir que eram antagônicas. A útlima virada é a decisão de que uma liberdade precisa morrer para que a outra viva. Não concorde com ela muito rapidademente.

Enfim, de todos os crimes que se cometem em nome da liberdade, o pior é retórica.

Mas eu desconfio que a única pessoa livre, realmente livre, completamente livre, é que não tem medo do ridículo.


Luis Fernando Verissimo

sábado, 26 de janeiro de 2013

Versões

Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podíamos ter sido.

Luis Fernando Verissimo
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